domingo, 18 de abril de 2010

Economia em 2010: vôo de águia ou de pardal ?

Economia: vôo de águia ou de pardal?
Esta é a pergunta que a cada início de ano o empresário brasileiro, de uma forma ou de outra tem de responder, pois a empresa requer decisões e não pode esperar “inerte” a cristalização dos fatos, ou é possível voar sem plano de vôo , ou navegar sem consultar a meteorologia ? Às vezes fico pensando com meus botões: “como é que a empresa brasileira elabora seus orçamentos ? que premissas adota ? Como decide ?”.
Para falar pouco ela precisa avaliar as forças de mercado no exterior e no Brasil e elaborar pelo menos uns três a cinco cenários, estimando crescimento da demanda, níveis de juros e câmbio para as moedas principais ( dentre elas o euro, dólar, Yuan, Yen), precisa analisar os “ratings” dos países, dos seus clientes e suas intenções de compras e de investimentos..., sem falar em compreender o impacto e adentrar no emaranhado espinheiro fiscal e regulatório do Brasil e dos seus parceiros...um desafio hercúleo. Das vagas dos mercados ao “chão da fábrica” há muita incerteza. É crítica a necessidade de uma projeção integrada dos Demonstrativos Financeiros e do Fluxo de Caixa, estes sempre revisados e atualizados. Pena saber que a maioria das empresas de porte médio não integram suas projeções, nem mesmo tem centro de custos, que as pequenas mal cogitam de um Fluxo de Caixa que integre o controle do Disponível e das contas de resultados. Como sobreviver em um mundo global, onde o fator risco é exponencial ? É possível que muitos empresários ( médios e pequenos) ainda não tenham uma percepção razoável do aumento acelerado do risco dos mercados desde os anos 70 ( alguém já os informou ?) . No máximo, às vezes, um ou outro pergunta : “ E aí, a Economia dessa vez vai ?”
Não há “bola de cristal”, muitos economistas não previram a crise do mercado financeiro mundial em 2008-09 e, muito menos conseguiram, avaliar a extensão das suas conseqüências pois o futuro a ninguém nesta terra pertence; as próprias agências internacionais de “rating” esquivaram-se por algum tempo, até a volta à normalidade. Isso faz parte do risco sistêmico, não é previsível, ponto final.
Ainda é mister refletir sobre as “fusões” forçadas de duas grandes corporações nacionais no segundo semestre de 2009, o que isso representa para o futuro empresarial em função do risco da integração dos mercados e da velocidade de decisão (ainda pouco conhecido). Alguns economistas norte-americanos alertaram sobre a possibilidade de ocorrência de novas bolhas e foram duramente criticados lá fora, hoje são consultores famosos. Um brigadeiro precisa de previsão meteorológica, como um navegador precisa saber as condições dos mares para acelerar os motores e assim são os países e as empresas. Não é diferente com o Brasil. Para a espinhosa missão de esboçar cenários sobre a economia brasileira em 2010 e, talvez, 2011, é necessário entender suas características estruturais.
Dentro da conhecida ciclicidade da economia, a do Brasil tem apresentado um padrão típico particular, bastante influenciado por fatores externos, devido à crônica dependência de poupança macroenômica para oxigenar seu crescimento, elevando o risco da elaboração e da estimativa da possibilidade de ocorrência de cada cenário. Desde os anos 90, com a “colagem dos mercados”, o risco de contágio elevou-se em intensidade e velocidade, potencializando o impacto final, como ocorreu na Crise da Ásia ( meados dos anos 90), quando houve forte elevação dos juros internos
O maior ganho do Plano Real, de1994, foi a progressiva estabilidade econômica, porém deve-se lembrar que os países estão cada vez mais unidos, os ganhos e as perdas de uns passam imediatamente para os demais. Um fato relevante, já conhecido e discutido, é que a economia brasileira sofre (em relação às economias asiáticas), da epidemia de baixa taxa de poupança, via de regra abaixo de 18% ao ano sobre o PIB, contra mais de 30% daquelas economias já referidas. A dependência de poupanças externas para turbinar o crescimento tem aumentado a instabilidade dos cenários para a economia brasileira. Esta situação de dependência umbilical pode ter sido agravada, nos últimos anos, pela crescente dependência da exportação de “commodities”, especialmente concentrada em grandes mercados (caso da China) e poucos produtos (caso de minérios e de derivados de produtos agrícolas), com preços relativamente mais voláteis que os manufaturados. A instabilidade relativa de preços de commodities (também já conhecida a nível teórico) acaba afetando o nível da inflação pela correias do Balanço de Pagamentos ( surgem os desequilíbrios, a desvalorização do câmbio e a pressão inflacionária). Mais um fator de instabilidade para os cenários daqui para a frente.
O ano de 2010 aponta para um nível de crescimento do Produto Interno Bruto da ordem de 6%, um número bom em termos internacionais (exceto a China, Índia e, talvez, alguns países asiáticos), mas baixo em termos da média histórica do Brasil de 1945 a 1960, e das necessidades do país em termos de geração de renda e emprego ( 2011 é um ano que pode precisar de ajustes). Mesmo com essa baixa taxa de crescimento as estatísticas já apontam para um cenário delicado no biênio 2010 e 2011 para o Brasil: a) Forte deterioração do saldo das transações correntes; b) Crescimento do défice orçamentário nas contas públicas consolidadas sobre o PIB; c) as habituais pressões dos gastos públicos em um ano eleitoral. Essas forças negativas já tem elevado a temperatura inflacionária neste início de ano e requerem uma ação corretiva por parte do guardião, o Banco Central. Esta é a razão pela qual o mercado financeiro já tem projetado uma correção da taxa Selic (juros básicos da dívida pública de curto prazo), hoje de 8,75% ao ano, ainda para meados deste semestre, para conter a demanda agregada, relativamente mais aquecida neste início de ano.
Toda cautela é bem vinda, ao se considerar, em adição, que a desejada estabilidade no mercado internacional ainda deixa a desejar: a) Fala-se em reformas necessárias no sistema financeiro internacional para evitar novas “bolhas” especulativas; b) A economia nos EUA, “ na enfermaria”, ainda inspira uma cautela clínica, juros quase zero e baixa atividade; c) Na Zona do Euro países mais doentios apresentam questões econômicas complexas ( acordos e políticas públicas são necessárias). Por traz do palco ainda há vestígios de ondas históricas: a) O rompimento do acordo de Bretton Woods no ano de 1971 ( moedas flutuam desde 1973); b) a maior integração comercial e financeira dos mercados ( Consenso de Washington nos anos 80) e a velocidade estelar das transações ao redor do globo ( revolução do conhecimento integrando as tecnologias da informação e comunicação ( as TICs). O efeito composto dessas forças precisa ser devidamente avaliado.
Assim não há como pensar em uma trajetória de crescimento tranqüilo nos próximos anos, no Brasil, pois sempre haverá necessidade de combustível importado (poupança externa) para crescer além do nível histórico, enquanto reformas tributárias não são realizadas ( incentivando a poupança familiar a nível de previdência privada, por exemplo). Surge na minha mente a imagem das saudosas caravelas, navios garbosos e às vezes imponentes pela beleza, mas pouco eficientes, sempre dependendo de ventos favoráveis para maior empuxo ao crescimento.
Quem nasceu no interior como eu sabe que aves pequenas como o pardal costumam dar vôos baixos e curtos, de árvore em árvore, às vezes até alçando um vôo maior, mas na distância dos olhos, já visualizando a próxima árvore, às vezes até ao alcance das pedras lançadas.
A águia dá vôos longos, nas alturas, graças à sua privilegiada musculatura e envergadura. Em contraposição a galinha dá vôos aos pulos, quase não sai do chão, seu peso não é compensado pela curta envergadura e fraqueza das asas. Fazendo uma relação com as imagens acima poder-se-ia dizer que a China tem realizado um “vôo de águia” e o Brasil, na melhor das hipóteses, vôos curtos, mais parecido como o “vôo do pardal”, mas bem superior ao “vôo da galinha” o que, se para alguns é um alívio, de forma alguma satisfaz aos anseios do povo brasileiro. Planejar é preciso e o nosso plano de vôo precisa de uma adequada revisão.

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